Os meses passaram com uma rapidez impressionante... Armad assimilou facilmente as habilidades de artífice. Já conseguia forjar uma espada e ferrar um cavalo, sem o auxilio de Baldron. Alugou um quarto de pensão, próximo à catedral Narzebub e, todo dia de manhã, quando Baldron chegava para abrir a ferraria, seu ajudante já o esperava em frente ao portão.Em uma fria madrugada de outono, Armad foi despertado pelo que pareciam gritos vindos dos arredores da catedral. "Alguém precisa de ajuda..." ele pensou, sendo em seguida, interrompido pela lembrança de Baldron, dizendo: "se ouvir gritos na madrugada, não saia. Tranque bem sua porta e janela. O mal domina essa cidade, ao anoitecer."
O mal. Disse apenas isso. Mas o que seria "o mal"? Apesar de ter sido criado no interior, Armad era cético quanto a existência de assombrações ou demônios. Alguém precisava de ajuda e ele não poderia ficar ali, fingindo que não estava acontecendo.
Foi até sua sacola e apanhou um punhal, presente de seu pai, quando completou dezoito anos. Prendeu-o ao cinto, vestiu um manto para proteger-se do frio da noite, saiu do quarto e desceu a escadaria que levava até a rua. A cidade estava deserta; exceto por um gato que passou carregando na boca, um camundongo que acabara de caçar, não havia uma viva alma na rua. Um novo grito e, desta vez, vindo de um beco próximo dali. De arma em punho, Armad foi se aproximando, o mais silenciosamente que podia. Um poste com um lampião à óleo iluminava debilmente a entrada do beco, deixando todo o resto na total penumbra. Ouve-se um gemido agonizante e, arrastando-se para fora do beco, um homem, lavado em sangue, luta para manter-se de pé, numa tentativa desesperada de fugir. Ao avistar Armad, ele estende-lhe a mão, em sinal de advertência e balbucia:
- Fu...fuuuujaaa...ele...está vind... - subitamente um braço negro e musculoso, sai da escuridão do beco, agarra o homem ferido pelo pescoço e o puxa de volta, como um boneco de pano. Os gritos de terror da pobre vítima são interrompidos pelo som de ossos se partindo. Então, um silêncio mórbido domina a atmosfera. Armad, em choque, fica paralisado por alguns instantes, até que, por instinto, gira nos calcanhares, para fugir dali, o mais rápido possível. Mal tem tempo de dar o primeiro passo, aterrissa em sua frente, uma criatura demoníaca, toda negra, pouco mais alta que ele, com enormes asas membranosas, que se dobram às sua costas, formando algo semelhante à um manto. O demônio o encara com olhos ferozes; sua boca esboça um sorriso sarcástico, deixando à mostra, uma carreira de dentes afiados, tingidos com sangue fresco. Em seguida, começa a fitá-lo, de cima até embaixo, como se o estivesse avaliando.
Armad ficou rígido como uma estátua, suando, apesar do frio; sua respiração estava ofegante e seu coração parecia que ia saltar pela boca. Depois de ver o que essa criatura acabara de fazer com aquele homem, não tinha dúvidas que teria o mesmo destino. Enfim, o monstro o encarou nos olhos, novamente e disse:
- Não contará a ninguém, o que viu aqui hoje. - sua voz era inumana, e o timbre se assemelhava ao som de vidro sendo riscado com a ponta de um prego.
- Prometa! - sibilou o monstro.
- Eu... eu prometo... não contarei a ninguém! - as palavras saíram com difuculdade, da boca do rapaz.
- Isto é para que se lembre de sua promessa. - o demônio apanhou a mão esquerda de Armad, como uma tenaz de ferro e, em seguida, lambeu-lhe a palma. A saliva corroeu a pele, como ácido, deixando uma cicatriz cauterizada.
Sem dizer mais nada, o demônio soltou-o, abriu suas grandes asas e alçou vôo, em direção ao céu negro.
O rapaz, correu de volta para seu quarto, trancou a porta, escorou-a com uma cadeira, verificou se a janela estava bem trancada e em seguida, deitou-se na cama, cobrindo-se com o cobertor até a cabeça. As imagens ainda estavam frescas em sua mente: os gritos, o homem ensanguentado, a criatura demoníaca... Armad achou que não conseguiria dormir, mas foi vencido pela fadiga.
Acordou com os sóis trigêmeos já altos no céu. Estava atrasado para o trabalho, sem dúvida. As lembranças da noite vieram à sua mente e ele resmungou para sí: "que pesadelo horrível..." mas ao apoiar a mão esquerda no colchão para levantar, sentiu uma forte ardência na palma; ao virar a mão para verificar, seu sangue gelou: lá estava uma cicatriz de queimadura, em forma de losango, bem no meio da palma da mão. Aquilo não foi sonho. Foi tudo real!



